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terça-feira, 9 de outubro de 2018

Cumprir aviso prévio é o mesmo que comparecer ao próprio enterro durante 30 dias

Imagem: Divulgação
Aviso prévio é um direito. Mas é também um constrangimento para o empregado. Ele só fica para receber mais um salário e ganhar um tempo extra para procurar outro posto no mercado.

Só que ele precisa ter sangue de barata, sangue-frio, para continuar o seu trabalho sem nenhuma esperança. É o mesmo que comparecer ao próprio enterro durante 30 dias, olhar a si mesmo no caixão e escutar o cochicho dos familiares e dos amigos, encharcados de compaixão com o seu destino malfadado.

É ter que encarar os seus colegas informados do fim como se ninguém soubesse de nada e seguir fechando negócios, continuar sorrindo, permanecer apertando as mãos dos clientes de modo seguro e confiante. É um fingimento desumano, apenas superado por personalidades fortes.

Talvez seja uma das experiências mais traumáticas do convívio. É enfrentar, de uma vez, a iminência de ser substituído e o contracheque resoluto, vazio de promoções e de crescimento profissional. Qualquer um que amargou o ultimato se considera descartado e humilhado.

É um despejo educado, desprovido de raiva e escândalo, desfalcado de lágrimas e ofensas, em que se deve, gradualmente, esvaziar as gavetas e apagar os arquivos para criar espaço e memória a quem vier.

O calendário é uma solitária folhinha de outono pendendo do galho. Não há como mirabolar planos e partilhar expectativas.

As risadas alheias parecem deboches. Não tem nenhum sentido contar como foi o turno a esposa e filhos, as datas são iguais e tristes.

Minha mãe, minha louca e abençoada mãe, é a única que pensa diferente. Depois que completou 75 anos, disse que recebeu aviso prévio de Deus. Todo dia a mais é lucro. São quatro anos de sobrevida feliz. Não ter futuro a inspira a se sentir livre para ser sincera e falar o que quiser. Encontrou, na humildade dos limites, um aproveitamento total da rotina com afagos nos netos, leituras, encontro com amigas e cinema. Não deixa coisa alguma para depois, é para hoje e para agora. Não promete e se torna presente. Aparece em vez de cobrar visitas.

Ela acredita que já viveu bastante, e agradece. Não pensa jamais naquilo que deixou de viver. Não assume o papel de injustiçada, de coitadinha, de vítima do destino. Quando acorda de manhã, cumprimenta o sol se existe sol, cumprimenta a chuva se existe chuva, e reza baixinho para Deus não notar a sua malandragem.

Não é porque a saúde termina, o emprego termina, que devemos terminar junto. (Fonte: Gaucha ZH)

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